Hoje no nosso Blog é dia de apresentar mais um Convidado Especial, se trata de Marcelo Prestes, que atualmente é Treinador da Categoria Sub-9 do Sport Club Internacional. Marcelo nos contará sobre o Processo de Iniciação Esportiva no Futebol, comentando sobre os problemas atuais na formação do jovem atleta e as recomendações para os treinadores submetidos nas categorias iniciais.

Mas, por que o Processo de Iniciação Esportiva no Futebol importa tanto?

Você vai entender agora. Boa leitura!

Figura 1. Getty Images/iStockphoto

A Iniciação Esportiva é um período fundamental no processo de desenvolvimento esportivo a longo prazo. Ao pensarmos em um Processo Formativo no Futebol qualificado e condizente com as fases de desenvolvimento da criança/jovem atleta, deve-se visualizar a construção de experiências positivas e diversificadas para a sequência destes no ambiente esportivo.

Neste sentido, a construção do Talento Esportivo que por muitos anos vinculou-se a um conjunto de habilidades inerentes ao sujeito, ou seja, o atleta nascia com o dom para determinada ação,  tem modificado e comprovado através da ciência que o Talento se relaciona com aquisições operadas a partir de práticas sustentadas e estruturadas (quantidade  e qualidade das práticas) com o intuito de promover a melhoria do Desempenho Esportivo (GARGANTA, 2009).

Paralelamente, Franchini (2001), aponta que este desenvolvimento é multifatorial, pois deve considerar variáveis do tipo Tática, Técnica, aspectos Físicos, Psicológicos (como motivação para a prática, aderência ao treinamento, autocontrole, autoconfiança e foco de atenção) e Sociais (suporte da família, relacionamentos afetivos, acesso ao treinamento, aspectos econômicos, culturais e identitários).

A partir disso, torna-se importante, cada vez mais, ao invés de preocuparmos apenas com a tarefa de Detecção de Talentos, procurar perceber quais os cenários mais adequados para que os Talentos possam se desenvolver. O processo de Iniciação Esportiva deve ser qualificado e condizente, com a exposição das crianças a boas práticas e a contextos qualificantes que potencialize o desenvolvimento dos jovens Talentos e possa auxiliar no crescimento da base de praticantes da modalidade.

No cenário do nosso país, enfrentamos alguns problemas neste processo. A ausência de um programa de Desenvolvimento Esportivo (amplo e sustentável), a dificuldade da Iniciação Esportiva no contexto geral da educação física escolar, a redução dos ambientes informais de prática (Futebol de rua), o aumento do uso das novas tecnologias pelos jovens, dentre outros tantos fatores ocasionam um cenário de dificuldades para o Desenvolvimento Esportivo no Futebol e nas demais modalidades esportivas.

A partir disso, o Processo de Iniciação ao Futebol, desloca-se para escolas de Futebol e futsal, projetos sociais e clubes. As escolas de Futebol/futsal, projetos sociais e os clubes, devem investir na qualificação dos seus ambientes de formação. Possuir em seus quadros funcionais, professores com perfil para trabalhar no Processo de Iniciação, uma metodologia adequada de treinamento, bem como uma estrutura física e material que possa auxiliar no desenvolvimento dos jovens. Além disso, a inserção em competições condizentes com o processo, de nível técnico adequado e que possa produzir oportunidades de experiências valiosas a formação.

Cabe uma ressalva neste ponto, pois  acredito ser importante que a família e as crianças possam escolher um ambiente esportivo saudável, educacional e com responsabilidade nesta Etapa Formativa. Por isso, vejo como fundamental, buscar um ambiente adequado, com professores/educadores qualificados, onde a criança e a família sintam-se acolhidos e possam atuar juntos na Formação Integral do jovem atleta.

Devemos proporcionar aos jovens nesta Fase de Iniciação, uma série de experiências esportivas, sejam elas nos diferentes níveis de prática formal e informal, ofertar treinos e vivências competitivas de qualidade, estimular o gosto pela Arte de Treinar e Jogar, respeitando as peculiaridades de cada período e as janelas de oportunidade para o desenvolvimento das Capacidades Físicas-Motoras, Técnico-Táticas e Psicológicas.

 A prática de diferentes modalidades esportivas, sejam elas coletivas ou individuais, auxiliam na construção de vivências positivas ao desenvolvimento físico-motor. Portanto, a participação em diferentes modalidades e níveis de ensino, sejam eles lúdicos, educativos e ou competitivos contribuem de forma significativa no processo de iniciação.

Porém, o que ocorre muitas vezes é pensar esta Fase de Iniciação ao Futebol apenas com o viés competitivo e tudo que cerca a competição, a pressão por resultados (advindas da instituição, do professor ou da família) e de formatação de equipes, com certeza podem gerar diferentes problemas no processo de detecção e promoção de Talentos e muitos jovens com potencial serão desperdiçados.

Faz-se necessário ressaltar, que nesta fase a ênfase deve estar na Construção do Indivíduo, considerando o seu desenvolvimento a longo prazo, utilizando a competição e a formatação de equipes como ferramenta, e não como a base do nosso trabalho. A partir disso, justifica-se a ênfase nos aspectos físicos-motores, na questão técnica e nos aspectos relacionados a Tática Individual. Isso não quer dizer que os princípios táticos coletivos não serão trabalhados, mas que podem ser inseridos de forma gradual.

O ponto principal é a forma como será Conduzido o Processo. É necessário respeitar o período de desenvolvimento dos jovens (faixa etária e o princípio da individualidade biológica), bem como adaptar a metodologia de treinamento as necessidades e possibilidades dos alunos/atletas.

Acredito que o Futsal, assim como o Futebol em campo reduzido (society/campo adaptado) são fundamentais para este Período Inicial da Formação. O caminho não é excludente, ou seja, a Iniciação ao Futebol pode ser construída no Futsal e no Futebol Adaptado. Para que fique claro, pode-se utilizar diferentes formatos, tamanhos e regras de ensino-treino, desde que ocorra uma Progressão Metodológica.

É fundamental proporcionar uma metodologia de trabalho que facilite o Desenvolvimento dos Jovens. A progressão espacial (futsal/society/campo) e situacional (3x3 ao 11x11) pode trazer diversos benefícios. Estimular a relação com a bola e a capacidade técnica, a quantidade e qualidade nas interações e tomada de decisões são pontos que se pode desenvolver com uma adaptação da metodologia a faixa etária e ao nível técnico do nosso contexto.

Neste processo de Adaptação Metodológica, podem ser adaptados: o tamanho do campo, o tamanho e o número de bolas (exercícios), a estruturação do espaço de jogo, o tamanho e o número de traves (balizas), o número de jogadores, assim como diversas outras possibilidades de intervenção visando a qualificação do ambiente de ensino-aprendizagem do futebol.

Figura 2. Quadro Ilustrativo produzido pelo autor​

Na Figura 2, trago um exemplo de Organização do Período Inicial da Formação de jogadores de Futebol. Neste sentido, acredito que devemos avançar nas propostas, o debate não deve ficar restrito ao Futsal x Futebol ou a ausência do Futebol de Rua, mas sim proporcionar aos jovens um ambiente propício para o desenvolvimento esportivo, independente do contexto ao qual estejamos inseridos.

Ressalta-se a importância de que os jovens vivenciem essa diversidade de experiências, podendo treinar/jogar futsal, Futebol Society, Futebol de campo (adaptado) nesta fase inicial, bem como, praticar outros esportes individuais ou coletivos. Isto envolve que os jovens tenham Liberdade de prática formal e informal, nas suas escolas de Futebol/futsal, projetos sociais e clubes. Estas experiências iniciais, além de auxiliar na construção de um repertório Técnico-Motor, também proporcionam inúmeros pontos positivos na Formação do Jovem Atleta.

E aí, você gostou desse assunto? Será que o ambiente de aprendizagem esportiva ao qual você está inserido, é um ambiente propício para o desenvolvimento de novos talentos? Que fatores podemos qualificar e potencializar no nosso ambiente de formação relacionado ao Futebol? Deixe aqui o seu comentário e não esqueça de colocar o seu nome na nossa lista de espera para o curso de Modelo de Jogo, entre na página http://modelodejogo.futebolinterativo.com/ e clique no botão “Tenho Interesse”.

                                                                       Marcelo Freitas Prestes

  • Graduação em Educação Física - Bacharelado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 2011.

  • Especialista em Atividade Física, Desempenho Motor e Saúde na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 2013.

  • Graduação em Educação Física - Licenciatura na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 2014.

  • Licença C e B - CBF Academy.

A trajetória profissional relacionada ao esporte iniciou em 2008, na Sociedade Esportiva Novo Horizonte (Santa Maria-RS), como estagiário e na sequência até 2017, exercendo diferentes funções técnicas e administrativas (Sub 7 a Sub 17).

Paralelo isso, acumularam-se experiências profissionais com o Projeto de Extensão de Futsal UFSM (Futsal Universitário), G2 Escola de Futebol (Professor) e Colégio Marista Santa Maria (Equipes de Futebol/Futsal).

Atualmente (desde 2018), trabalhando no Sport Club Internacional (Treinador da Categoria Sub 9) e junto a Escola Rubra (Escola de Futebol Oficial do Clube).

                                                                               REFERÊNCIAS:

FRANCHINI, E. Judô: Desempenho competitivo. São Paulo: Manole, 2001.

GARGANTA, J. Identificação, seleção e promoção de talentos nos jogos desportivos: factos, mitos e equívocos. In J. Fernandez, G. Torres & A. Montero (Eds.), Actas do II Congreso Internacional de Deportes de Equipo. Editorial y Centro de Formación de Alto Rendimiento. Universidad de A Corunã, 2009.