Houve um tempo em que especialistas em cada posição predominavam no futebol. O atacante só fazia gols, o meia só enfiava bolas que rompiam defesas e cobrava faltas, o zagueiro só sabia desarmar, o goleiro só jogava com as mãos e por aí vai. Mas por que hoje está cada vez mais difícil encontrar esse tipo de jogador? Os craques diminuíram no futebol?

Riquelme foi um bom exemplo de especialista. Jogador que participava muito com a bola nos pés, porém praticamente não jogava quando a equipe rival tinha a posse.

Primeiro de tudo temos que entender a formação desses jogadores antigos e comparar com a atual. Antes o jogador brincava de futebol na rua quase todos os dias, chegava aos clubes com 13, 14 anos de idade já com um repertório motor grande; era treinado por ex jogadores que replicavam o método que foram treinados quando eram atletas, o analítico (método pautado na repetição de gestos técnicos, a separação da parte física, técnica e tática no treinamento.

Creio que, se você já esteve em alguma escolinha ou categoria de base, já treinou assim. Ou seja, os treinos eram físicos sem bola, com bola eram específicos para cada posição. Então os defensores, por exemplo, só treinavam habilidades defensivas, e os atacantes só praticavam finalização de todas as maneiras e no final de tudo havia um coletivo 11 x 11. Só aí era transmitida a ideia coletiva do treinador para a equipe, praticamente não havia o conhecimento de outros métodos que não fosse esse. Talvez isso tudo explique porque a individualidade era o que predominava no futebol de anos atrás e porque a intensidade das ações era bem menor.

Um exemplo de exercício analítico. Treina-se apenas a técnica de cruzamento e cabeceio.

A tecnologia foi entrando no futebol aos poucos, o acesso a informações sobre adversários e métodos de trabalho foram crescendo a ponto de hoje podermos analisar cada detalhe do rival e escolher como queremos trabalhar uma equipe. Tudo isso tornou o jogo mais estudado e consequentemente mais intenso. Então disseminou-se no futebol o método sistêmico de treino, onde o objetivo é treinar o jogo e aperfeiçoar a tomada de decisão do jogador e seu lado coletivo na equipe, não mais a técnica individual, pois é uma exigência do jogo atual o atleta participar de todas as fases e momentos do jogo, mas isso o torna menos especialista que antes.

Aqui, a especificidade de como se quer jogar é tudo. A partir disso é que são montadas as atividades. Elas envolvem principalmente o campo reduzido (não se separa mais as vertentes, treina-se o lado físico, técnico e tático em uma atividade e consequentemente em uma sessão); Soma-se a isso as crianças não brincarem mais na rua; hoje o atleta chega aos clubes com a mesma idade de antes e sem repertório motor; geralmente acaba sendo treinado na base por um acadêmico que cresceu vendo um treinador europeu de terno a beira do campo e que sonha em ser como o ídolo, então ao invés de focar em desenvolver o atleta, ele quer formar um time para ganhar jogos para ser promovido e assim treinar uma equipe profissional o quanto antes.

Um exemplo de atividade do método sistêmico. Treina-se, quase sempre, em campo reduzido a tomada de decisão do jogador e sua participação em todo o jogo.

 

Porém, saber fazer de tudo não significa fazer bem. O número de atletas que cobram faltas, enfiam bolas e driblam aumentou, mas a eficiência diminuiu. Tudo isso ocorre sim por uma mudança do jogo, mas também porque a cada dia que passa estamos abolindo os métodos de treino que tornavam o jogador especialista. Vejo que nenhum método torna o jogador tão bom na tomada de decisão e participação do jogo como o método sistêmico, mas este não é bom em aperfeiçoar a técnica; por sua vez, o analítico é o melhor para aperfeiçoar a técnica individual, mas não para fazer o jogador pensar rápido, solucionar problemas e participar ativamente do jogo. 

 

Pedrinho é um exemplo do típico jogador atual, sabe fazer de tudo um pouco (passar, driblar, entrar na área), mas não é especialista em nada, ainda que seja participativo no jogo.

 

Na opinião de quem escreve, o que falta? Mesclar os métodos e dar estrutura para os treinadores de base quererem continuar na base, e, assim, formar jogadores especialistas, porém versáteis e que tomem boas decisões no jogo como um todo. Pois nem tudo que é antigo é ruim, e nem tudo que é novo é bom a ponto de extirpar o que já deu certo lá atrás.

 

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