Hoje no nosso Blog é dia de apresentar mais um Convidado Especial e hoje ele vem de Minas Gerais, se trata de Filipe Mattos que atualmente é treinador da categoria Sub-15 do Clube Atlético Mineiro. Filipe nos falará sobre Modelo de Jogo nas Categorias de Base, um tema que sempre gera muitos debates e, que com certeza, será uma bela leitura através das palavras do nosso convidado.

Então vamos ao texto, boa leitura a todos!

Esta pergunta que compõe o título, geralmente é a primeira que se faz/escuta quando se aborda o tema Modelo de Jogo nas Categorias de Base, principalmente no futebol brasileiro, questiona-se se é correto ou não, se tem vantagens ou desvantagens, e se será efetivo e benéfico reproduzir o Modelo de Jogo da equipe profissional nas categorias inferiores. De fato, é um questionamento muito pertinente e acredito que muitos fatores podem e devem ser considerados antes de se tomar essa importante decisão.

Antes de entrarmos no cerne da questão, ressalto que entendo as Categorias de Base como um conjunto de processos, de curto, médio e longo prazo, e desta forma se faz necessário a presença de um caderno metodológico e um currículo de formação para nortear todos esses processos. Por fim, antes de voltarmos ao tema, precisamos definir o que entendemos por Modelo de Jogo e quais são os aspectos que precisamos considerar para sua elaboração e desenvolvimento na prática.

Recentemente a Confederação Brasileira de Futebol lançou a 2ª edição do Glossário do Futebol Brasileiro, onde apresenta de forma muito clara o que acredito ser uma ótima definição de Modelo de Jogo – É o conjunto de referências táticas que permite delimitar e concretizar o treinamento e a competição. – Também neste mesmo glossário esclarece as diferenças entre modelo de jogo, ideias de jogo, cultura de jogo, entre outros termos relevantes. Portanto, é através do processo de treino, pautado no Modelo de Jogo que a equipe irá apresentar sua identidade em todos os momentos do jogo, como ataca, como defende, como se comporta ao perder e recuperar a posse de bola nas mais diversas situações.

Durante elaboração de um Modelo de Jogo, de forma geral, alguns aspectos devem ser considerados: a cultura do clube e seus objetivos, o contexto atual, as ideias de jogo da comissão técnica, os princípios de jogo, as características dos jogadores à disposição, a metodologia de treino, além das organizações estruturais e funcionais. Todos esses aspectos auxiliam a comissão nas importantes escolhas a serem tomadas, além de ajudar na organização e modelação das ideias na prática. Sendo assim, podemos considerar que Modelo de Jogo é tudo, é algo imprescindível.

Voltando a pergunta intitulada neste texto, acredito que essa resposta é bastante delicada e todos estes aspectos citados devem ser analisados de maneira muito profunda para que possamos atingir o êxito em nossas decisões. Se escolhermos qualquer clube para realizar uma imaginação hipotética, iremos perceber que muitos destes aspectos poderão apresentar diferenças entre as Categorias de Base e a equipe profissional, seja pelas características dos jogadores, pelo contexto atual, ou até mesmo pela estrutura disponibilizada para o desenvolvimento. Algumas similaridades também poderão ser vistas em alguns destes aspectos, sejam pelas ideias de jogo da comissão e princípios de jogo, ou pela metodologia aplicada e organização funcional pautada pelos mesmos critérios.

Um fator que julgo determinante e que nos auxilia com esse questionamento, é o contexto atual da equipe principal. Ao analisarmos o contexto em que se encontra a equipe principal, identificamos que existe estabilidade ou muita rotatividade de comissão técnica no clube? Caso haja muita rotatividade, essa rotatividade vem acompanhada de ideias distintas entre as comissões que ocuparam o cargo? Esse já seria um bom ponto de partida a ser considerado quando for desenvolvido o Modelo de Jogo para as Categorias de Base.

Pensando nesse contexto hipotético, podemos imaginar duas possibilidades, caso haja pouca rotatividade de comissões e houver sintonia entre as ideias e propostas das comissões, parece que por esse viés é possível pensar em um Modelo de Jogo nas Categorias de Base que vá ao encontro da equipe profissional, pois ao longo do tempo se mantém as mesmas ideias norteadoras e princípios de jogo. Por outro lado, caso exista muita rotatividade e as ideias forem muito distintas entre comissões, fica muito difícil que as Categorias de Base consigam desenvolver e aplicar um Modelo de Jogo que se assemelhe ao implementado pela equipe profissional, visto que há muitas possibilidades de mudanças em curto espaço de tempo.

Outro aspecto que acredito ser muito importante a ser considerado, principalmente quando analisarmos diferentes contextos de clubes, são os seus objetivos gerais e seus objetivos específicos para a formação.

Entendo que ao analisarmos as Categorias de Base dos clubes, primeiramente precisamos identificar quais são os reais objetivos do clube em si, ou seja, para quem o clube de fato está formando seus jogadores. Existirão clubes que tem como grande objetivo formar seus atletas na base para que atinjam a equipe principal tornando-se ativos importantes que irão gerar retorno desportivo e financeiro para o clube. Outros clubes com menor estrutura, com menos indicadores de avaliação e com metas de menor prazo, podem ter como objetivo formar seus atletas para que possam ser vistos por outros clubes, de maior representatividade ainda nas categorias de base.

Atualmente já conseguimos identificar um terceiro cenário no futebol brasileiro, clubes que tem como objetivo desenvolver seus atletas para o mercado externo, e desta forma serão outros os processos a serem desenvolvidos no período de formação desses atletas nas Categorias de Base.

Acredito que muitos clubes que apresentam grande similaridade na quase totalidade dos aspectos considerados para a elaboração do Modelo de Jogo, podem buscar ter como objetivo principal nas Categorias de Base a formação de seus atletas a longo prazo, onde se tem condições de desenvolver processos com indicadores de avaliação mais precisos e que o resultado final seja a promoção gradual de seus atletas na equipe principal.

Por outro lado, acredito que muitos outros clubes que não apresentam tanta similaridade nos aspectos, devem buscar trabalhar com maior liberdade nas Categorias de Base, com Modelo de Jogo mais adaptado a sua realidade e voltado aos seus objetivos principais de curto e médio prazo.

Por fim, acredito que essa pergunta continuará pertinente por muito tempo em nosso país, entendo que com base em todos esses aspectos que compõem a elaboração e desenvolvimento do Modelo de Jogo conseguiremos minimizar os nossos erros, entendendo que não existe uma única possibilidade neste caso, que o certo e o errado vão estar conectados a uma série de fatores e que é necessária uma criteriosa análise com o intuito de tomarmos melhores decisões.

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Filipe Mattos é Graduado em Educação Física (Bacharelado) pela UFRGS (2012). Tem Pós-Graduação em Especialização Esportiva pela SOGIPA (2014), possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV (2016) e as Licenças B e A Treinadores pela CBF (2018 e 2020, respectivamente).

Como experiência, Filipe Mattos tem passagens por EC São José - RS (2010-2016), onde foi treinador do Sub-11, Sub-13 e Sub-15. Teve passagem pelo Joinville EC – SC (2017-2018), onde foi treinador do Sub-15, Sub-17 e Sub-20. Também passou pelo CA Tubarão – SC (2018-2019), como treinador do Sub-17. E, atualmente, está desde 2019 no Clube Atlético Mineiro, onde é treinador da categoria Sub-15.